Ando com vergonha de escrever aqui.
*houve intento
Setembro 18, 2008
“Apesar de…
…ser incapaz de obter qualquer coisa para mim mesmo, de curar a menor de minhas doenças, fui dotado (e este é decerto meu único talento) do poder de contribuir freqüentemente para a felicidade de outros, de aliviá-los de suas dores. Eu reconciliei não só inimigos, mas amantes, curei inválidos, sendo capaz apenas de piorar minha própria doença, fiz ociosos trabalharem, enquanto permaneci ocioso(…). As qualidades (digo isso com um certo desconforto, porque em outros aspectos não me tenho em bom conceito) que me proporcionam chances de êxito com relação a outras pessoas são, ao lado de uma certa diplomacia, a capacidade de auto-esquecimento e de concentração exclusiva no bem-estar de meus amigos, qualidades que não costumam ser encontradas numa mesma pessoa com freqüência(…). Eu senti, enquanto escrevia meu livro, que se Swann tivesse me conhecido e pudesse recorrer a mim em busca de conselhos, eu saberia como trazer Odette para perto dele.”
Marcel Proust a André Gide (tradução Luciano Trigo)
Agosto 19, 2008
Mudança de registro
Há tempos não ouvia uma cantora com um hook tão adorável. Que musculatura tem a tal da Regina – aqui pronunciado como em vadjaina -, hein. Tenho tido pensamentos obsessivos com ela praticando o yodel.
Tem sempre alguém com uma terminologia escrota, né não?
Agosto 18, 2008
(apenso I aos vexames da vigília)
“A coruja tirânica que quer impor sua vontade ao artista é a razão narcísica do hiper-racionalismo. Os morcegos são as larvas e os fantasmas do irracionalismo. Dois animais deficitários, truncados. O morcego tem uma audição aguda, mas é cego. A coruja enxerga de noite, mas não de dia. Falta um terceiro animal na zoologia de Goya, mais completo. Não, não falta. Ele está no canto direito, enorme, olhando fixamente o espectador. É um gato. O gato ouve tudo e tem uma visão diurna e noturna. Sabe dormir e sabe estar acordado. E sabe relacionar-se com o Outro, sem arrogância, ao contrário do seu primo selvagem, o tigre, e sem servilismo, ao contrário do seu inimigo domestico, o cão. É a perfeita alegoria da razão dialógica, da razão que despertou do seu sonho, é atenta a todos os sons e todas as imagens, tanto do mundo de vigília como do mundo onírico, e conversa democraticamente com todas as figuras do Outro, sem insolência e sem humildade” (ROUANET, Sergio Paulo. A Deusa Razão. In: NOVAES, Adauto (Org.) A Crise da Razão. São Paulo: Companhia das Letras; Brasília, DF: Ministério da Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, pp. 298-299)
É, né.
Só as cachorras.
As preparadas.
O baile todo.
(miau)
Agosto 18, 2008
Vexames da vigília – I
Quando a gente passa 2/3 do tempo de vigília cuidando de problemas alheios, dormir parece um crime.
Aí um dia o Goya tava lá, apreciando as tramas de seu robe de chambre contra a luz do sol poente e disse que o sono da razão produz monstros.
Depois uns alemães drogados, homossexuais, afrodescendentes, nordestinos, portadores de necessidades especiais, cujos nomes serão omitidos por conta de um mandado judicial, disseram, em uníssono, que a razão vigilante também é teratogênica.
Aí, negão, a casa caiu panóis. Tamo no trem fantasma, truta.
(Como era mesmo o número dos ghost busters?)
Agosto 10, 2008
O nome do pai (adagio con dolore)
Metáforas lacanianas à parte:
Daddy
Sylvia Plath
You do not do, you do not do
Any more, black shoe
In which I have lived like a foot
For thirty years, poor and white,
Barely daring to breathe or Achoo.
Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time—
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one gray toe
Big as a Frisco seal
And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off the beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du.
In the German tongue, in the Polish town
Scraped flat by the roller
Of wars, wars, wars.
But the name of the town is common.
My Polack friend
Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
Put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.
It stuck in a barb wire snare.
Ich, ich, ich, ich,
I could hardly speak.
I thought every German was you.
And the language obscene
An engine, an engine,
Chuffing me off like a Jew.
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen.
I began to talk like a Jew.
I think I may well be a Jew.
The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna
Are not very pure or true.
With my gypsy ancestress and my weird luck
And my Taroc pack and my Taroc pack
I may be a bit of a Jew.
I have always been scared of you,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You—-
Not God but a swastika
So black no sky could squeak through.
Every woman adores a Fascist,
The boot in the face, the brute
Brute heart of a brute like you.
You stand at the blackboard, daddy,
In the picture I have of you,
A cleft in your chin instead of your foot
But no less a devil for that, no not
Any less the black man who
Bit my pretty red heart in two.
I was ten when they buried you.
At twenty I tried to die
And get back, back, back to you.
I thought even the bones would do.
But they pulled me out of the sack,
And they stuck me together with glue.
And then I knew what to do.
I made a model of you,
A man in black with a Meinkampf look
And a love of the rack and the screw.
And I said I do, I do.
So daddy, I’m finally through.
The black telephone’s off at the root,
The voices just can’t worm through.
If I’ve killed one man, I’ve killed two—
The vampire who said he was you
And drank my blood for a year,
Seven years, if you want to know.
Daddy, you can lie back now.
There’s a stake in your fat black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always knew it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I’m through.
Agosto 8, 2008
De velhas obsessões – I
Sempre haverá em sua vida (pelo menos) uma mulher obcecada por Joni Mitchell. Confessa, eu poderia dar à luz infinitas laudas sobre as fibrilas adocicadas de sua voz; sobre a paradoxal força das caudalosas emossoens que pareciam querer romper a pele alva fazendo desmoronar o seu hesitante corpo esguio, mas vou só oferecer um videozinho a vocês, passantes, enquanto tento encobrir o irritante rondó que a chuva compõe em parceria com a minha janela.
